Cartaz exibido em manifestação em Teresina, Piauí, contra bloqueio de recursos para educação
Lorena Linhares/ G1 PI
O escritório do pesquisador cientista japonês Tasuku Honjo, na universidade de Kyoto, é uma balbúrdia. Nele, um time jovens pesquisadores desenvolveram um trabalho que renderam o último prêmio Nobel de medicina e irá salvar a vida de milhões de pessoas nos próximos séculos.
A balbúrdia salva vidas. A balbúrdia é pop.
A segunda lei da termodinâmica é uma das mais pops das leis da física. Diz, basicamente, que tudo no universo tende a tornar-se balbúrdia.
A balbúrdia é natural da vida. A balbúrdia é pop.
A balbúrdia é inevitável, como diz Thanos duas vezes em “Vingadores: Ultimato”. Das cenas do blockbuster da Marvel, as que nos mais empolgam são as que envolvem alvoroços: A cena da chegada de todos os heróis ao campo de batalha, saindo ao mesmo tempo dos portais abertos pelo Doutor Estranho, e o momento em que o Capitão América subverte a lei cósmica e empunha o martelo de Thor. A platéia foi a loucura.
A balbúrdia é o ápice de um arco dramático. A balbúrdia é pop.
“O Caos é uma escada”, dizia o saudoso Mindinho, personagem de “Game of Thrones” que movimentou toda a trama nas primeiras seis temporadas. As duas últimas se transformaram em uma trama previsível, um capa espada medieval todo certinho e organizado, onde príncipes são príncipes, mulheres são héteros e precisam de homens. GoT conquistou a fama que tem justamente pelo contrário. Por ter subvertido todas as regras do gênero. Não se sabia o que se esperar da cada episódio. Um caos. Por isso, adorávamos.
A balbúrdia dá ibope. A balbúrdia é pop.
Ontem, ocorreu em Cannes a estreia de “Bacurau”. Um filme-balbúrdia de gêneros (faroeste, ficção-científica, horror gore) que conta a história de uma comunidade explorada que finalmente reage fazendo, pra não dar spoiler, uma balbúrdia infernal em seu último ato. Ao final da sessão de gala, o diretor Kleber Mendonça Filho pegou o microfone e disse ao mundo: “Esse filme é sobre ser brasileiro, é sobre resistência e educação.” O filme foi consagrado pela crítica do jornal inglês The Guardian.
A balbúrdia é uma estratégia de sobrevivência. A balbúrdia é pop.
Ontem, centenas de milhares de jovens foram às ruas de todo o Brasil fazer balbúrdia. Foram protestar contra os cortes que o governo federal quer fazer na educação.
A balbúrdia é eficaz. A balbúrdia é pop.
Ao Jornal Nacional, uma deputada governista que parece um desenho animado, reclamou: “O presidente nunca compactuou com esse tipo de manifestação ideológica e barulhenta. Não tem como estabelecer diálogo com gente que está na rua gritando, que está na rua esperneando, xingando o governo. Isso não é diálogo. Isso é baderna.”
Fui pesquisar quem era a deputada. Descobri que é uma youtuber que consagrou-se como a deputada federal com a maior votação da história. No primeiro video que encontrei na rede, adivinhem: A própria deputada no alto de um carro de som, na rua, gritando, esperneando e xingando o governo, em uma manifestação ideológica e barulhenta, antes dela própria tornar-se candidata.
A balbúrdia pode ter dois pesos e duas medidas. A balbúrdia é pop.
Na excelente matéria do G1 que nos mostrou o que estava escrito nos cartazes que os estudantes levaram para as ruas, observou-se considerável influência da cultura pop. Um cartaz comparou o presidente ao Exterminador do Futuro, outro pedia “Dracarys” no planalto, e outro, em inglês, parodiou o maior clássico pop da cantora Cindy Lauper, estampando a frase: “Girls just wanna have FUNding for their research”.
A balbúrdia pode ser inteligente. A balbúrdia é pop.
Portanto, toda vez que você estiver quieto, discreto, mudo, arrumado, em ordem, tranquilo, paralisado, acomodado, habituado, anestesiado, lembre-se.
No estágio que estamos, talvez só a balbúrdia possa salvar o Brasil.
Selo blog Dodô Azevedo
Arte/G1

https://g1.globo.com/pop-arte/