Taron Egerton é Elton John em ‘Rocketman’
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Vestido com a extravagância que o caracteriza nos palcos – e na pele do jovem ator inglês Taron Egerton – ele chega para uma sessão de terapia de grupo dizendo chamar-se Elton Hercules John, ser alcoólatra, viciado em cocaína e em sexo. Assim mesmo, arrogante, sem cerimônia. E se põe a contar sua história num filme por ele mesmo produzido.
Longe de me investir no ofício de crítico, para o qual não tenho dom nem vontade, não me atreverei a dizer se “Rocketman” é ou não bom cinema. Meus direitos vão até poder afirmar, como curioso interessado por cinebiografias musicais, que saí do cinema sabendo mais sobre Elton John do que sobre a maioria dos músicos já projetados na tela.
Não me refiro aos filmes que Hollywood dedicou, por exemplo, a George Gershwin, Cole Porter, Jerome Kern, nem aos que fizemos por aqui para mostrar quem foram Sinhô, Zequinha de Abreu, Francisco Alves. Não se podia esperar muito de tais antiqualhas, umas criadas pelo gosto americano por enfeitar a vida de seus ídolos, outras frutos da incipiente ingenuidade do cinema brasileiro de meio século atrás.
Passo por cima, também, de produções nacionais recentes (Cazuza, Elis, Noel, Gonzagão & Gonzaguinha, os dois filhos de Francisco, Tim Maia) para me limitar ao mais complexo (e mais difícil de retratar) mundo do rock. Nele, destaco o tão bem recebido “Bohemian Rhapsody”, sobre o grupo Queen e seu vocalista Fred Mercury. Quem viu, gostou. Apesar (ou por causa) da forma atenuada e conservadora como foram tratados temas “proibidos” como sexualidade e drogas.
Consta que o próprio Elton John, com autoridade de produtor, recomendou ao diretor Dexter Fletcher e ao roteirista Lee Hall que não economizassem tintas ao tratar desses assuntos. Não é por isso, porém, que o filme mostra mais do personagem do que outras cinebiografias.
Há quem lhe faça reparos. Mas que importância tem se a música que ilustra cada momento da vida de Elton John esteja cronologicamente fora de lugar? Ou que falte na trilha sonora uma ou outra canção mais representativa? Ou que Bernie Taupin (Jammie Bell), letrista e braço direito, tenha papel mais discreto que o de John Reid (Richard Madden), empresário e amante, explorador de gente da música (entre outras de suas vítimas estão Michael Flatley, sapateador do “Riverdance”, e Fred Mercury, conforme “Bohemian Rhapsody” sugere)? Resposta: nenhuma importância.
Também não importa se Taron Egerton é menos parecido com Elton John do que Rami Halek com Fred Mercury. Nem que, nos créditos finais de “Rocketman”, para tornar mais feliz o happy end, diga-se que o moço não bebe nem cheira há 28 anos. Nada disso impede que o conheçamos melhor.
Taron Egerton interpreta Elton John no filme ‘Rocketman’
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O formato escolhido para contar a história de um dos mais famosos nomes da música pop não foi o da narrativa tradicional, com começo, meio e fim, os fatos mostrados como aconteceram ou, na preferência de tantos, como podiam ou deviam ter acontecido. Tudo mostrado de forma linear, uma cena, uma canção, outra cena, e assim por diante, com direito a licenças poéticas e toda sorte de clichês.
Também há licenças e clichês em “Rocketman”. O do astro que sobe rápido, depois desce, vai ao fundo poço e depois se reergue para voos ainda mais altos já foi usado em incontáveis musicais. Mas é a história de Elton John. A liberdade maior está em contá-la não de forma objetiva, sequencial, um dia após outro, mas como uma grande fantasia da qual as canções, ótimas, fazem parte.
Jamie Bell (Jamie Bell) e Taron Egerton (Elton John) em ‘Rocketman’
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Por exemplo: conhece-se melhor Elton John ao vê-lo, adulto, conversar com Reggie Dwight (Kit Connor), o menino que ele foi um dia. Ou em várias outras cenas que, não funcionando como documentários, explicam o relacionamento com o pai homófobo (Steven Macintosh), com a mãe ausente (Bryce Dalas Howard) e sobretudo, com o empresário e amante que o ajuda a chegar ao topo e depois o explora e maltrata.
O breve casamento com uma mulher, a tentativa de suicídio, o carinho da avó, a falta de amor trespassando todo o enredo, tudo isso é tratado nos devidos tempo e lugar, mas como um imenso delírio a explicar Elton John, suas atitudes, sua arte.
Pode ser que formatos mais tradicionais dissessem com mais clareza quem foi este grande personagem. Mas não creio. Prefiro ficar com um das sentenças usadas pelos realizadores na divulgação de “Rocketman”: “O único modo de contar sua (de Élton John) história é viver sua fantasia”.

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