Com Antonio Banderas e Penélope Cruz, diretor encerra trilogia do desejo iniciada em 1987. Premiado em Cannes, filme estreia esta quinta-feira (13) no Brasil. Pedro Almodóvar viaja no tempo em “Dor e Glória”: nos apresenta um menino doce e inteligente em um povoado pobre do interior da Espanha, mas também nos coloca no mundo soturno de um diretor de cinema em crise, na luta com fantasmas do passado e vícios do presente.
O cineasta espanhol de 69 anos também viaja entre sonho e realidade. Há devaneios de reconciliação consigo mesmo e o impacto de doenças, dores, engasgos e remédios.
O resultado é um percurso gostoso, melancólico e bonito sobre o mosaico de temas que apresenta um diretor dilacerado. Quem for assistir ao 21º filme de Almodóvar, nos cinemas a partir de quinta-feira (13), verá desejo, angústia, perdão, a iminência da morte e a falta de preparo diante dela.
Mas todas essas viagens, por mais belas que sejam, nunca chegam a um clímax. Tudo comove, mas segue sem subir o tom. A impressão é de obra inacabada. Ainda mais com Almodóvar, mestre de clímax intensos.
Trailer de ‘Dor e Glória’
Uma quase biografia
Antonio Banderas interpreta Salvador Mallo, um diretor de cinema aos 60 anos, envolto em crise criativa, dores no corpo inteiro e depressão. Ao ter sua obra de 30 anos atrás homenageada, reencontra um antigo amigo, um antigo amor e suas memórias de infância.
A história acima encerra a trilogia do desejo de Almodóvar, completada por “A lei do desejo”, de 1987, e “Má educação”, de 2004. E isso é feito com muitos elementos dos dois filmes, às vezes como referência, em outras como homenagem.
Na comparação inevitável, é fácil dizer que “Dor e Glória” é o mais biográfico da carreira. O cabelo bagunçado de Banderas e as semelhanças físicas são a menor das pistas sobre isso.
Todo o bloqueio criativo (que Almodóvar enfrentou antes de “Julieta”, em 2016) e os detalhes biográficos do diretor (doenças, relação conflituosa com a mãe, a carreira) são um pouco do diretor. “Mas não estou tão mal quanto o protagonista”, brincou no Festival de Cannes, em abril.
Menos cores de Almodóvar
Se você já assistiu a alguns dos filmes do diretor espanhol, não vai reconhecer tantos elementos recorrentes na obra dele. Faltam cores, o humor e o absurdo de sempre. Em “Dor e Glória”, o diretor se distancia um pouco disso e encontra um tom mais melancólico.
Mas não os abandona suas características por completo. Elas estão presentes justamente no que veio do próprio diretor. O apartamento e o figurino do protagonista ainda trazem sua extravagância. E objetos de arte e decoração, assim peças de roupa foram emprestados dele.
Elenco afinado
Almodovar posa para foto ao lado de Penélope Cruz e Antonio Banderas
Eric Gaillard/Reuters
Asier Flores, ator que interpreta Salvador na infância, é uma graça. Cheio de leveza e com a responsabilidade de uma das cenas mais sublimes – um desmaio diante da primeira manifestação de desejo físico. A simpatia dele arrebata.
Penélope Cruz é o furacão de sempre, em um papel escrito com carinho para ela. Ela canta, chora e emociona com sua participação quase especial.
Melhor ator no Festival de Cannes, Banderas é o grande destaque do filme, em seu oitavo trabalho com o diretor. Com atuação na medida, ele se faz de perturbado, apaixonado, inocente, mas com alguns erros na hora da execução. Resume bem o que é “Dor e Glória”.

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