Cordelista brasileira pediu sobrevivência das universidades públicas e foi aplaudida. Festa Literária segue até domingo (14) em Paraty. Carmen Maria Machado e Jarid Arraes palestram na Flip 2019 com mediação da jornalista Adriana Couto
Reprodução/Flip
Com um clima de conversa de comadres, as escritoras Jarid Arraes e Carmen Maria Machado e mediadora Adriana Couto levaram um debate cheio de sensibilidade para 17ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) na tarde deste sábado (13).
Jarid, filha do sertão do Cariri, no Ceará, falou sobre temas que perpassam sua escrita: força das mulheres, apagamento de mulheres negras, violência e marginalização.
Já a escritora americana Carmen maria Machado falou sobre as dualidades de ser uma autora LGBT filha de imigrantes nos Estados Unidos.
Em comum, as autoras carregam o amor por contos e narrativas breves. Carmen publicou, em 2018, uma coletânea com contos, ensaios e até listas chamada “O corpo dela e outras farras” e ganhou alguns prêmios nos Estados Unidos.
“Eu sempre fui muito ansiosa, fazia 50 desenhos em uma aula de artes. Então o conto é um laboratório onde eu posso experimentar e brincar”, diz a escritora.
Jarid, que fez sucesso com o livro de cordéis “Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis” em 2017, lança agora o de contos “Redemoinho em dia quente”. Sua escolha foi, de certa forma, política.
“Foi o formato que achei de subverter a realidade. São muitas vozes, cada uma com um jeito de contar sua história. É um livro coletivo, é de todas as mulheres do nordeste”.
“Espero ajudar a abrir portas para que outras mulheres como eu comecem a escrever.”
Com a palavra, a filha do sertão
“Eu sou uma mulher do sertão. Eram tantas questões culturais e morais envolvidas nas imposições contra o corpo de uma menina. Isso me fez crescer entre dualidades. Eu cresci muito revoltada e rebelde contra minha terra e as pessoas dali”, desabafou Jarid.
Seu novo livro conta diferentes histórias protagonizadas por mulheres que sofrem.
“Cresci assistindo mulheres sofrendo traumas e sofri os meus próprios. O que aprendi com essa passeata de traumas é que a gente continua vivendo como uma casa com telhado quebrado”.
A sensibilidade da jovem de 28 anos arrancou aplausos da plateia diversas vezes:
Quando falou da (falta da) atenção à saúde mental da mulher: “A gente continua a despeito disso. Quando tem muita sorte, vai tratar na terapia. Na maioria das vezes, não tem que ajude”;
Da arte como salvação: “É importante ter esses caminhos de tratamento como a arte para você expressar e exorcizar seus tramas”;
Da dor comum a todos nós: “Eu não escrevo sobre violência, abuso sexual, homofobia, depressão, suicídio porque eu gosto, mas porque todos vivemos essas dores e isso nos torna humanos. Escrever sobre isso tem a beleza de nos unir”.
E da força das mulheres que sofrem, apesar de tudo. “Não quero pintar mulheres como vítimas e incapazes, mas como pessoas que continuam e vivem vidas que florescem ainda que o corpo tenha sido violentado. A gente mora na casa com telhado quebrado, mas vai tampando as goteiras”.
A escritora foi aplaudida com muita força ainda uma vez. quando fez um chamado à empatia e defendeu a resistência das universidades públicas.
“Vamos fazer o exercício de ouvir os outros. Pode sair um livro, um mestrado, vamos defender as universidades públicas.”
‘Literatura LGBT pode ser feliz’
Carmen desenvolveu sua escrita acompanhada por uma angústia: Não escrever apenas sobre as tristezas e violências em relação à comunidade LGBT, mas não ignorá-las.
especialmente quando escrevo sobre o corpo queer, o corpo da mulher. os corpos são nossos territórios.
“Durante muito tempo, só podíamos contar histórias sobre homofobia, violência, crimes, se assumir; Para mim foi importante perceber que tem o sofrimento, mas também tem a alegria. Eu gosto de andar nessa linha entre reconhecer o sofrimento do corpo oprimido e ao mesmo tempo a alegria da sobrevivência.”
Ela transita entre o terror e a literatura fantástica. “As pessoas me questionavam porque eu falava sobre gays e fantasmas ao mesmo tempo. Porque, para mim, esses personagens são naturais e podem estar em qualquer contexto”, defendeu.
definida ela mediadora como escritora de “’Black mirror’ feminista”, ela ri. E confessa que o terror é seu gênero perfeito. “Pode ser engraçado e assustador. E, principalmente, muito subversivo.”
Homenagem a Conceição Evaristo
Jarid Arraes chorou ao lembrar de Conceição Evaristo, sua inspiração. “Eu não sabia que existiam escritoras negras até a adolescência. Conceição foi a primeira que li na vida, quando já era adulta.”
“Eu nunca achei que poderia ser escritora porque não tinha alguém que se parecesse comigo.”
A jornalista Adriana Couto, mediadora da mesa, aproveitou para cutucar a Academia Brasileira de Letras. “Conceição Evaristo é maravilhosa e deveria estar na ABL, não é?”
A provocação de Adriana é eco de um protesto do ano passado, quando o cineasta Cacá Diegues foi eleito imortal da ABL. Ele derrotou a escritora mineira, que recebeu apenas um dos 35 votos.

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