O americano David Wallace-Wells e a brasileira Cristina Serra encerraram a programação do sábado (13) com debates sobre aquecimento global e as tragédias de Mariana e Brumadinho. Cristina Serra, David Wallace-Wells e Julia Duailibi na Flip 2019
Walter Craveiro/Flip/Divulgação
Três jornalistas debateram desastres ambientais na última mesa da programação da Festa Literária de Paraty (Flip) neste sábado (13) e entregaram a mesa mais política do evento:
A brasileira Cristina Serra, que lançou em 2018 o livro “Tragédia em Mariana: a história do maior desastre ambiental do Brasil”;
O americano David Wallace-Wells, autor de “Terra inabitável” (2019);
Julia Dualibi, mediadora da mesa.
Enquanto o americano assumiu um tom mais científico, jogando muitos dados e números alarmantes para a plateia, a brasileira foi mais incisiva contra o poder público.
“A atual gestão já disse que o governo é dos ruralistas. Eu vejo o cenário atual de uma forma bastante pessimista. Todas as conquistas de proteção ao meio ambiente correm risco. Teremos uma guerra”, disse Cristina.
David evitou tecer comentários diretos sobre o presidente americano Donald Trump. “Não há uma única nação industrializada que esteja em dia com o acordo de Paris”
“O indivíduo é responsável por uma parte pequena disso, é um problema global. Todas as nossas trajetórias estão indo na direção de longo prazo, que temos que mudar o curso rapidamente. estamos a cada ano com novos recordes de emissão de carbono.”
Mas o americano não poupou o presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Ele cita o presidente em seu livro e, durante a Flip, disse que sua atuação é preocupante.
“Com o Brasil é diferente por causa da Amazônia, um patrimônio excepcional. O mundo depende da Amazônia para o consumo de carbono. Os países individualmente podem fazer muito pouco, mas o impacto do desmatamento da Amazônia seria catastrófico, justamente o que ele está tentando fazer.”
“Se o Bolsonaro seguir com as mudanças pretendidas, o Brasil emitirá tanto quanto a China. Isso para mim o coloca como um dos maiores vilões nessa matéria.”
O problema da mineração
Cristina Serra era repórter e cobriu por dois anos os desdobramentos do desastre de Mariana, entre 2015 e 2016.
Para ela, os trabalhos jornalístico e literário foram determinantes para que se tratasse o problema como político e não apenas ambiental.
“Em Mariana, eles estavam vendendo a justificativa de tremores de terra, como se fosse uma causa natural. As investigações começaram a mostrar que havia responsabilidades a serem apuradas. O livro explica o cenário político-institucional que está por trás dos processos de licenciamento mal feitos e deixam as empresas muito à vontade pra não cumprirem as leis”, disse.
“A mineração sempre foi uma máquina de moer gente. Em Mariana foram 19 moídos. Em Brumadinho, 270.”
Cristina não baixou o tom político e revelou dados de sua apuração para montar o livro. “80% dos deputados estaduais de Minas Gerais foram eleitos com doações de empresas mineradoras. Então precisamos pensar no poder político e econômico dessas empresas. Elas são o poder político, as doações não são feitas a troco de nada e a conta vai chegar.”

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