Capa do disco ‘Chega de saudade’, de João Gilberto
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Difícil falar sobre João Gilberto. Tantos já o fizeram e tão bem. Afinal, ele foi o maior. Não resisto em fazer minha homenagem. Só de ver a capa do LP “Chega de saudade” dá aquele aperto na garganta. Batem lembranças da adolescência e dos primeiros amores. Fica a vontade de voltar no tempo e telefonar para o João como tantos corajosos fizeram e, simplesmente, agradecer.
Foi a sua batida transformadora que embalou as nossas tardes e noites no final dos anos 1950. Foi aquele ensinamento de falar e cantar baixinho, sem gritos, uma delicadeza. Veio tudo junto como uma onda que nos fez gostar mais de nós mesmos. Juscelino na presidência, o Brasil ganhando a Copa do Mundo, Pelé e Garrincha nos campos driblando o complexo de vira-lata.
O pai da Bossa Nova, que não gostava de ser chamado assim se dizendo sambista, mostrou ao mundo belezas da nossa música que cantavam um país sonhado, uma cidade suave e assim juntou-se aos muitos que foram os formadores da nossa comunidade imaginada, sonhada, que desejava ser misturada, doce e tão brasileira. Certamente não era uma realidade assim tão boa, mas João Gilberto e a Bossa Nova representaram o desejo de ser a aquarela, o nosso lado poético e vibrante. Era um Brasil tão ingênuo de Orfeu Negro e das muitas canções que seu violão eternizou. Saudade!
Lendo muito do que se escreveu sobre João Gilberto dei com os costados em uma crônica de Augusto de Campos no Correio da Manhã de domingo dia 18 de agosto de 1968. Uma crônica fabulosa de seu encontro com João Gilberto em Nova York. Contou-nos que estava com receio porque diziam que João era reservado, quieto, mas não foi isso que viveu. Conversaram de dez da noite às quatro da manhã sobre os jovens baianos. Caetano e Gil lhes enviaram fitas gravadas com músicas e entrevistas. Ao longo de toda a noite a TV estava ligada, sem som. Isabelzinha, a Bebel Gilberto, tinha lá os seus dois anos. A crônica é linda e impossível de reproduzir, mas em uma dada altura, discutindo sobre o Rio de Janeiro e São Paulo, porque Augusto morava na terra da garoa, João veio com uma pérola maravilhosa: “É, você tem razão. São Paulo é bom por causa do Rio”.
O tempo passa, a vida passa num instante, mas João Gilberto deve ser eterno e será porque nos legou essa vontade de sermos brasileiros por amor à nossa gente, ao mar de Amaralina e ao mar de Ipanema.
Augusto de Campos termina a sua crônica com um elogio: “Lá ficou o olhar de João, iluminando os caminhos da nova música brasileira. Penso no gênio de João, na grandeza do seu exílio, na sua recusa ao fácil, no seu apego ao silêncio, na lucidez de sua visão.”
Só posso concordar com o poeta.

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