Seriados antes eram vistos por produtoras locais como ‘produto de segunda categoria’, mas bom desempenho e retorno de investimentos fez panorama mudar nos últimos meses. Terceira temporada de ‘La Casa de Papel’ ganha trailer e data de lançamento
As grandes produtoras audiovisuais, como Netflix, Paramount e Mediapro, entre outras, estão criando raízes em Madri, nova capital europeia das séries graças a ficções espanholas de sucesso como “La casa de papel”.
Em um estúdio no norte da cidade, um cenário representa um escritório de advogados. Nele, uma equipe de técnicos grava um diálogo entre duas atrizes para uma série que será emitida na rede espanhola Telecinco.
O espaço é propriedade da produtora espanhola Mediapro, que reforçou sua presença nesta cidade, a demanda de séries disparou nos últimos anos.
“Antes era inimaginável que um estúdio como o nosso estivesse produzindo 10 séries em um único ano. O normal podia ser duas ou três”, conta Javier Pons, produtor do The Mediapro Studio.
Por trás deste impulso estão as plataformas de streaming como Netflix, HBO Go e Amazon. A produtora espanhola está preparando uma comédia para a HBO e reconhece ter projetos com outras plataformas, dos quais não pode falar.
Estes gigantes, que revolucionaram o consumo de ficção televisiva, também alteraram seus métodos de trabalho.
O novo status de Madri como núcleo de produção de séries ficou evidente com a chegada da Netflix, que em abril inaugurou seu primeiro estúdio europeu em Tres Cantos, na periferia norte da capital espanhola.
Em instalações enormes de 22 mil metros quadrados, propriedade do grupo espanhol Secuoya, foi gravada a terceira temporada de “La casa de papel”, que estreará nesta semana.
A série sobre uma quadrilha de ladrões e seu roubo espetacular à Fábrica de Moedas de Madri, comprada pela Netflix depois de ser emitida pela rede espanhola Antena 3, se tornou a produção de língua não inglesa mais vista na plataforma americana.
Este sucesso inesperado pesou muito na decisão da Netflix de se instalar em Madri, afirma Elena Neira, especialista em novos modelos audiovisuais na Universidade Aberta da Catalunha.
E a popularidade de outras séries como Elite, sobre a juventude abastada madrilenha, motivou os produtores espanhóis que até agora viam suas séries como “um produto de segunda categoria”.
“Para um monte de gente na Espanha, um conteúdo espanhol que de repente aparece com o selo de uma marca tão potente como a Netflix parece muito mais legal do que quando é emitido pela Antena 3”, afirma Neira.
Junto às produções, chega também o dinheiro: segundo um informe recente da consultora PricewaterhouseCoopers (PwC), a produção de séries em espanhol passou de contribuir com o PIB do país 429 milhões de euros em 2015, por 38 séries, a 655 milhões por 58 séries em 2018.
Esta cifra ainda pode aumentar 24%, segundo a PwC. Além disso, a produção de séries, que em 2015 representava menos de 10.000 empregos na Espanha, poderia terminar dando trabalho a mais de 18.000 pessoas.
Espanhol, um idioma em alta
Outro gigante audiovisual americano, Viacom (Paramount, MTV) anunciou em abril que Madri ia ser um de seus centros para desenvolver suas produções em espanhol.
“Há neste momento uma tendência importante de consumo de conteúdos em espanhol e de consumo de conteúdos de língua não inglesa que potencia a possibilidade de criação daqui para fora”, justifica Laura Abril, diretora de conteúdos para a Espanha e Portugal da Viacom.
Entre 2018 e 2022, a PwC prevê que as plataformas de vídeo on-line crescerão com mais força nos países de língua hispânica do que no mercado americano ou britânico. E os espanhóis reivindicam seu crédito nisso, apoiando-se em uma antiga tradição de produção audiovisual.
“Coloca-se muito o foco nas novas plataformas, mas tudo foi solidificado antes”, explica Patricia Diego, professora na Universidade de Navarra. “Álex Pina, o criador de ‘La casa de papel’, fazia séries há 20 anos” para as redes espanholas, lembra a especialista em ficção televisiva. Outro fator são os baixos salários do país, que aumentam sua competitividade.
Com esta aposta na Espanha, as plataformas americanas avançam também em seus deveres para 2020, quando deve ser implementada uma diretiva da União Europeia que lhes obrigará a oferecer 30% de conteúdos europeus em seu catálogo. “E os operadores, hoje, estão muito longe disso”, reconhece Elena.

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