Karina Sainz Borgo lançou seu primeiro romance em janeiro na Europa. Ela participou da 17ª Festa Literária Internacional de Paraty ao lado do brasileiro Miguel Del Castillo. Miguel Del Castillo e Karina Sainz Borgo em mesa da Flip 2019
Walter Craveiro/Flip/Divulgação
Karina Sainz Borgo lançou seu primeiro romance em janeiro deste ano. “Noite em Caracas” relata a crise humanitária na Venezuela. Publicado na Espanha, teve direitos negociados para 22 países. A Venezuela não é um deles.
“Não tem medicamento, comida. Se eles quiserem comprar meu livro com o preço europeu, gastariam o salário de quatro meses. Temos uma iniciativa com uma editora pequena para distribuir ali, mas ainda não concretizamos.”
A escritora se apresentou na 17ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) nesta sexta (12), ao lado do brasileiro Miguel Del Castillo. Ele é autor de “Cancún”, um livro que mistura conceitos de masculinidade e religião.
Os dois livros partem do luto, com as mortes da mãe da protagonista de “Noite em Caracas” e do pai do protagonista de “Cancún”.
“É uma morte alegórica e política. As sociedades regidas por ditadura têm um poder que devora os indivíduos, não há melhor definição disso”, explica Karina.
Para Miguel, o luto também é alegórico. “É a morte da infância entrando na adolescência. e também de um ideal de masculinidade que aquele protagonista não tem”.
A dor de deixar a Venezuela
Karina carrega culpa por ter deixado a Venezuela em 2006. Dos males do menor, pelo menos essa culpa gerou um ótimo livro. Esse é o sentimento de toda uma geração.
“Às vezes digo que nunca saí porque minha cabeça permanece ali. Mas saí porque fui desenraizada, já não pertenço a lugar nenhum.”
“Temos um país que expulsa seus netos, persegue as pessoas. O desenraizamento dessa geração, o medo e a ansiedade te fazem sentir culpado.”
A escritora se sentiu por muitos anos sem direito de falar sobre seu país. E, por isso, pede um olhar cuidadoso aos leitores, sem julgamentos. “Não é um livro político, é literatura. O que eu fiz foi falar de coisas terríveis. Eu quero que gere empatia, mas um autor não consegue controlar o que seu livro provoca.”
Seu romance mistura personagens de diferentes países da América Latina porque, para ela, é um problema que extravasa as fronteiras da Venezuela.
“É vital falar sobre os ciclos autoritários da América Latina. Temos muito em comum, recebemos chilenos, argentinos, mentes brilhantes que nos ajudaram a construir nosso país. Por isso quis formar um grande coro de migrantes e peregrinos”, explica.
Evangélicos sem demônios
Em seu livro, Miguel fala de um grupo cada vez mais pop no Brasil: o dos evangélicos. O assunto pode despertar paixões e ódios atualmente, mas ele prefere ficar sempre um passo atrás.
“Minha ideia era falar sobre os evangélicos sem maniqueísmo. Estamos em um momento muito maniqueísta no país com a polarização. Mas sempre que olhamos atentamente a um assunto, a complexidade da vida se impõe. Nas igrejas, comunidades podem ser muito amorosas mas também muito julgadoras.”
O autor leu a Bíblia durante a vida inteira e acompanhou de perto o descimento das igrejas evangélicas no Brasil, tanto em número quanto em proeminência no debate, sobretudo político.
“Saindo do livro e olhando o que tem acontecido, existe um fascínio pelo poder que me parece muito distante do que o evangelho significa em essência.”
“Jesus começou a pregar em um canto completamente esquecido do Império Romano, sempre dizia que seu reino não era deste mundo.”
O escritor aproveitou para comentar a fala do presidente Jair Bolsonaro nesta quarta-feira (10), de que indicará para o STF um ministro “terrivelmente evangélico”.
“Não há problema se um ministro for evangélico ou ateu. Mas quando se diz ‘terrivelmente evangélico’ implica uma belicosidade e uma imposição à sociedade, diferente da maneira que Jesus pregava, que não impunha nada. É incompatível com a ideia do evangelho, acho uma pena.”

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