Liberace
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Engana-se quem pensa que Liberace está tão esquecido quanto morto. É verdade que já não existem as senhoras de meia idade, viúvas ou solteironas, que o adotavam como o filho que sonhavam ter. Existem, porém, 432 fiéis, muito diferentes das mães adotivas, que mantêm atuante um fã-clube para celebrar a vida, a música, as roupas, os carros e o que mais lembre o pianista falecido em fevereiro de 1987.
Não houve programação especial para comemorar, em 16 de maio sete ano, o centenário de nascimento de Liberace. O fã-clube homenageia seu ídolo em todos os dias e em todos os anos, e não apenas nas datas redondas.
Wladziu Valentino Liberace foi um personagem único. Muito talentoso, trocou a carreira de pianista clássico pela de showman que tocava, cantava e dançava em seus recitais, filmes e especiais de TV. Vestindo-se sempre extravagantemente, os casacos multicoloridos, as calças justas, os anéis e os colares de pedras preciosas, comportava-se como um dândi consciente do próprio charme.
Ficou famoso. E rico também. O que o permitiu colecionar carros, móveis antigos, pianos, um dos quais teria pertencido a Chopin, e fazer destes acervos concorridas exposições em Hollywood. Era tão admirado por isso quanto pela música, geralmente peças clássicas rearranjadas por ele. Só as fãs mais fieis levaram a sério quando, por motivo jamais sabido, o chamaram de “Liszt de Las Vegas”.
Famoso, rico, mas anacrônico. Pois Liberace realmente viveu em época errada. Em 1956, quando chegou a Londres para concertos no Finsbury Park, o jornalista Bill Connor –– que assinava como “Cassanda” uma coluna no “Daily Mirror” ––decidiu desmistificá-lo. Criticou sua “canastrice lilás” e disse com todos os sinônimo que Liberace era exatamente o que parecia ser. Isso num tempo em que a homossexualidade destruía carreiras e, pior, era crime.
Liberace processou Connor e o jornal. Três anos depois, ganhou a causa num tribunal londrino, que condenou o jornal a indenizá-lo em 8 mil libras (quase 100 vezes mais em dinheiro de hoje). Em suas futuras visitas à Inglaterra, inclusive para várias apresentações no London Palladium, tocou, cantou e dançou para casas lotadas, feliz da vida.
Liberace também ameaçou jornais americanos de processá-los por insinuações –– apenas insinuações –– sobre sua sexualidade. Coisas daquele tempo. Sua morte, em decorrência da Aids, pode ter sido duro golpe para as senhoras que o adotaram. Ou não. Ele apenas tinha nascido em época errada, como mostra o filme de 2013 “Minha vida com Liberace”, de Steven Soderbergh, em que ele é vivido por Michael Douglas, e seu amante, Schott Thorson, autor do livro em que o filme se baseia, por Matt Damon.
Com tudo isso, ainda há pelo menos 432 fiéis para os quais pouco importa se Liberace cometeu perjúrio naquele tribunal londrino.

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