Jimi Hendrix no Festival de Woodstock
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Woodstock não foi um festival de rock. Não apenas. Nem aconteceu em Woodstock, mas numa fazenda de gado da pequena cidade de Bethel, Nova York. A música que se ouviu há 50 anos, de sexta-feira, 15 de agosto, à segunda, 18, foi a trilha sonora (sem dúvida notável) de um grande momento na cultura do século XX.
Se a afirmativa pode parecer exagerada, tenta traduzir o que pensam os que se ocuparam de estudar a década de 60 nos Estados Unidos e em praticamente todo o mundo. O festival pode ter começado como ruidoso protesto contra a guerra no Vietnã, mas acabou sendo a marca de algo muito mais amplo e transformador: o movimento hippie e tudo que lhe diz respeito.
Pelo sentido anárquico, não violento, libertário, de contestação dos valores culturais, sociais e mesmo políticos, tradicionalmente aceitos como modelos, o movimento tomou o sentido contrário do estabelecido e passou a ser conhecido como contracultura. Não que a geração hippie pretendesse tomar o poder, virando a América do avesso. Queria somente lutar contra regras e padrões conservadores da sociedade. E assim, garantir o direito a outro modo de viver, alternativo, inspirado em paz e amor, sexo e drogas, liberdade e rock ‘n’ roll. Por tais manifestações terem ocorrido ao mesmo tempo e no mesmo lugar, naquele agosto de 1969, Woodstock ficou sendo uma espécie de símbolo.
Tudo isso já foi dito, com mais e melhores palavras, pelos que dedicaram seu conhecimento a falar do festival e seu significado. Não foi, mesmo, um evento roqueiro, mas de reunião do universo pop a saudar a ainda distante Era de Aquário. Ali brilharam Jimi Hendrix e Janis Joplin, Santana e Joe Cocker, dividindo o palco com artistas tão diferentes deles como Arlo Guthrie e Joan Baez, a escocesa Incredible String Band e o indiano Ravi Shankar (com seu sitar, e não cítara, como tem sido escrito). Foram mais de 30 grupos apresentando-se, por vezes sob chuva forte, para 400 mil pessoas.
A Era de Aquário, tempo cósmico de relação entre os movimentos da Terra e os constelações zodiacais, prometia (promete ainda) novos tempos para a Humanidade. Não para breve, mas para dali a mais de 2 mil anos. Entre outras viagens, os hippies viviam o presente apostando no futuro.
Depois, a cada dez anos, tentou-se reviver o grande momento, sempre sem sucesso. Agora mesmo, quando acaba de fracassar a tentativa de comemorar festivamente o cinquentenário do Woodstock original, concluiu-se que –– mais do que original –– ele foi único. Faltaram a espontaneidade, o propósito, o interesse e, principalmente, o espírito que fizeram de uma festa um episódio histórico.
Tudo mudou nesses 50 anos. A Era de Aquário continua distante, só chega daqui a 20 séculos, e a de Peixes em que vivemos, dizem os astrólogos, é a era da desilusão. Os jovens de 1969 são hoje septuagenários. Quando muito, septuagenários saudosos. Suas causas são outras. Poucos de seus filhos e netos ainda pensam numa sociedade alternativa, não tradicional, pela qual valha a pena lutar à maneira da geração hippie.
Contracultura, no mundo de hoje, é apenas uma palavra. Os roqueiros, de comportamento antes tão livre, transformaram-se em pop stars de bons modos, com agendas e empresários milionários a programá-los em bem produzidos festivais. O nosso Rock in Rio? Bacana, mas nada a ver com Woodstock.
A América também mudou. As guerras são outras e ninguém protesta contra elas. Sem falar em países como o nosso, hoje empenhado em reviver um passado social e politicamente já velho, muito velho, quando Woodstock aconteceu.

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